Animais (In)Felizes
Há cerca de dois anos uma alma bondosa recolheu uma pobre cadela abandonada e quase morta de frio e de fome ignorando que ela se encontrava de "esperanças" (no entanto, acho que se ela o soubesse a sua atitude teria sido exactamente a mesma). Passado algum tempo o animal deu à luz 6 cachorrinhos que ninguém naquela casa teve coragem de matar ou de mandar matar. Enquanto cresciam, bonitos e saudáveis, tentou-se por todos os meios arranjar-lhes dono. Apenas se conseguiu que dois deles fossem adoptados, os restantes continuaram a crescer e a brincar no quintal daquela senhora de bom coração que, por sinal, tem 85 anos. Essa senhora vive com uma irmã dois anos mais nova que se encontra amarrada a uma cadeira de rodas, vítima de um AVC. Pouca ou nenhuma ajuda recebem de fora, no entanto, com grande sacrifício, os 5 cães são alimentados e tratados com todo o carinho. Têm um quintal espaçoso e têm onde se abrigar do calor, do frio e da chuva. São todos muito dóceis e adoram aquelas duas senhoras. Mas, como todos sabemos, há almas ruins que só são felizes quando espalham o mal e uma dessas criaturas, vizinha das duas velhotas, decidiu fazer queixa dos cães à polícia, com o argumento de que os cães ladravam de noite e não a deixavam dormir.
E, desde então, a vida das duas pobres mulheres transformou-se num inferno. Desde polícias a fiscais da camara são constantes as visitas que recebem por causa dos cães. Já foram multadas e intimidadas a registar e vacinar os animais, o que, com grande sacrifício, estão a fazer, à razão de um cão por mês porque não o podem fazer por inteiro pois vivem as duas das suas parcas reformas (entre multas, vacinas e registos têm de pagar 105 euros por cada cão). As pobres infelizes pensavam que ao fazerem este sacrifício tinham o problema resolvido. Puro engano. Hoje, dia 8 de Fevereiro de 2007, receberam a visita de dois fiscais da câmara que as informaram que só podiam ter 3 cães e que a câmara iria lá buscar dois. O desespero apoderou-se delas. Adoram os 5 animais e eles adoram-nas. Como escolher dois, sabendo que o seu destino certamente será a morte?
Resta salientar que desde que elas souberam que a criatura tinha feito queixa passaram a recolher os 5 cães em casa TODAS AS NOITES. Se essa mulher continua a não dormir deve ser certamente por qualquer outro motivo e não por causa dos animais.
O caso é este sem tirar nem pôr. As duas velhotas estão desesperadas e pedem que alguém as ajude a salvar os dois pobres cães. Não sabem o que fazer nem a quem se dirigir.
Caso haja quem possa dar uma ajuda, nomeadamente a nível legal, por favor contacte o telemóvel nº 93 825 8574.
CRONICAS TURCAS OU 2 TUGAS NO IMPÉRIO OTOMANO - O ARROTO
Prosseguindo no relato das nossas aventuras em terras turcas, no dia seguinte à nossa chegada fomos convidadas para almoçar por um dos fabricantes com quem tinhamos entrevista marcada. Já não consigo recordar as feições dos dois homens que se apresentaram no nosso hotel à hora combinada, apenas me lembro que um deles era um turco típico - baixo, entroncado e ostentando um bigode farfalhudo, do tipo daqueles que há vinte ou trinta anos adornavam majestosamente o lábio superior de qualquer português digno desse nome. O outro, filho do dono da fábrica, fugia ao estereotipo. Não usava adorno capilar, era jovem, alto e bonito e creio que ficou embeiçado pela minha cunhada que não sendo muito alta nem usando bigode também era seguramente nova e bonita. Mas isso só o viemos a descobrir muito mais tarde e talvez venha a ser tema de outra crónica.
A refeição correu bem e a conversa girou em torno das razões da nossa viagem. Depois de bebermos o saboroso café turco, de que ficámos fãs incondicionais, o turco do bigode decidiu terminar o almoço de forma algo insólita, pelo menos para nós, pouco habituadas que estavamos ao contacto com outros povos e outras culturas. Pousou a chávena e soltou um monumental arroto que se ouviu em toda a sala. Os outros comensais nem sequer viraram a cabeça mas nós corámos como se tivessemos sido nós a cometer a indelicadeza e entreolhámo-nos sem saber o que fazer ou dizer. Em seguida o turco perguntou-nos tranquilamente se desejaríamos visitar a fábrica. Nós estavamos de tal forma estarrecidas que não encontravamos palavras para lhe responder. Hesitavamos entre esquecer o incidente e seguir em frente ou levantarmo-nos e sair da sala, acabando logo ali com as nossas pretensões comerciais. Optámos pela primeira hipótese e só mais tarde viemos a saber que aquela era a forma dos turcos e outros povos fazerem saber à pessoa ou pessoas com quem comem que a refeição estava muito boa e que tinham apreciado muito a sua companhia.
Crónicas Turcas ou Duas Tugas no Império Otomano - O Teleférico
Não é fácil recordar viagens que se fizeram há mais de uma década mas a verdade é que os momentos mais engraçados, emocionantes ou tristes ficam sempre na nossa memória.
Fomos duas vezes à Turquia, mais propriamente a Izmir, uma das vezes com paragem de 3 dias em Istambul. Tinhamos encontros agendados com donos e representantes de fábricas de peles pois a minha cunhada - uma dinâmica empresária lusa - pretendia importar e vender em território nacional casacos e blusões confeccionados neste país.
Da primeira vez viajámos Lisboa/Paris/Izmir e a meio de uma tarde fria chegámos ao Hotel Plaza, situado no alto de um monte. Era (já não é pois entretanto fechou) um bom e bonito hotel que tinha a particularidade de ficar na base de um outro monte, este muito mais íngreme, e de estar munido de uma estação de teleférico do outro lado da estrada.
Fiquei altamente impressionada pelo facto de ter mesmo em frente ao local onde ia pernoitar tão interessantes instalações e logo ali decidi que tinha de subir ao alto do monte o mais depressa possível. E sem mais delongas arrastei a minha cunhada do quarto sem sequer lhe dar tempo de abrir as malas e de mudar de roupa. Obriguei-a a atravessar o átrio e os jardins do hotel em passo de corrida e a correr atravessámos a estrada e comprámos os bilhetes. Tinha-nos sido dito na recepção que a ultima viagem do dia teria lugar daí a 10 minutos e eu não queria de maneira nenhuma perder a oportunidade da minha vida. É que eu nunca tinha andado de teleférico (penso que o elevador do Sacré-Coeur de Paris não pode ser considerado um teleférico) e ansiava por tão transcendente experiência. O facto de ter pavor das alturas não teve qualquer peso na minha pressa, aliás tão insignificante pormenor nem sequer me aflorou o pensamento.
Quando entrámos no espaço em que deveríamos subir a bordo das cabines parei estarrecida. Não é que o meio de transporte a que aqueles turcos pomposamente chamavam teleférico mais não era do que quatro cadeiras unidas por um eixo que por sua vez encaixava numa espécie de veio transmissor que trepava pelo monte acima? Horror! Queriam que eu subisse a uma altura daquelas sentada numa cadeira e com as pernas pendentes sobre o abismo? "Eu não entro naquilo!" gritei. Estava-se em cima da hora de partida, o funcionário chamava por nós e a minha cunhada puxava por mim. "Não! Eu não entro naquilo, vai tu! Eu fico aqui!" "No problem! No danger!" proclamava o funcionário sorridente. As outras vitimas inocentemente sentadas nas suas cadeiras riam-se da cena e a minha cunhada só dizia "Mas foste tu que quiseste vir, arrancaste-me do quarto para vir aqui e agora não queres subir?" "Eu não subo naquela geringonça, dou-te o dinheiro dos bilhetes mas nem morta me apanhas lá em cima! Vai tu, porquê que não vais tu?" gritava eu indignada, como se tivesse sido ela a autora da ideia.
Ela não foi, claro, e eu também não mas a verdade é que se ela não me tivesse pressionado, se me tivesse dado tempo para me mentalizar e preparar para tão perigosa aventura, hoje saberia porque motivo turcos suicidas se sentam em cadeiras sem pernas e trepam a um monte que nem sequer tem neve. Para esquiar não é de certeza. Ou será?
(Re)começar
Não sei porquê perdi o hábito de postar. Falta de tempo, de assunto, de paciência. Um pouco de tudo, confesso. Mas alguém de quem eu gosto muito e que está longe pediu-me que retomasse esta saudável actividade. E como não consigo recusar-lhe nada, aqui estou. Mas escrever o quê? Sobre quem?
O recente anuncio de que o Prémio Nobel de Literatura tinha sido atribuido a um escritor turco trouxe-me à memória as viagens que fiz a este país na companhia da minha ex-cunhada. Fomos cunhadas e amigas durante muitos anos, agora somos só amigas. Espero que para toda a vida. Apesar da distância que nos separa continuo a pensar nela sempre que preciso de falar com alguém. E a minha conta de telefone é a prova disso. Gosto e sempre gostei da sua objectividade, do seu olhar clínico e certeiro, da facilidade e rapidez com que analisa as pessoas e as situações. Ainda eu estou a anos-luz e já ela percebeu tudo. Olha para uma pessoa pela primeira vez e tira-lhe logo o retrato. E nunca falha. Melhor do que ela só uma câmara digital com muitos milhões de pixels.
Sim, acho que vou contar algumas das nossas peripécias na Turquia mas isso fica para o próximo post.
O Regresso
A quem eventualmente possa interessar, comunico que vou voltar a postar. Não sei com que regularidade mas vou fazer os possíveis por manter uma certa assiduidade. Tudo depende do tempo disponível e do que houver para dizer. E agora vou retirar-me para pensar no tema do meu proximo post. Até breve.
Felizmente, ainda há padeiras de Aljubarrota!
No início das férias, uma amiga minha teve o azar de partir um pé. Levada para um hospital da margem sul e de chinela na mão, por manifesta impossibilidade de a inserir no local apropriado, foi atendida por um mal-humorado médico espanhol que, sem qualquer consideração pelas evidentes dores da paciente, decidiu manusear-lhe o pé como se estivesse no talho a escolher um chispe para a feijoada.
Ela gritou e tornou a gritar. Disse-lhe que lhe doía muito e pediu-lhe que parasse. Ele ignorou-a.
Como ela continuasse a gritar e a tentar fugir às suas mãos, rispidamente ordenou-lhe que se calasse e que não admitia gritos no seu gabinete.
A minha amiga ferve em pouca água e não é pessoa que admita que alguém a mande calar. Sobretudo se esse alguém é estrangeiro e lhe está a provocar dores atrozes.
Logrando escapar às mãos do verdugo atirou-lhe a chinela com toda a força e berrou:
- Você a mim não me manda calar, ouviu? Se quer mandar calar alguém vá para a sua terra. Eu estou no meu país, este hospital é português e eu grito o que eu quiser. E ai de você que me toque no pé outra vez!
Estupefacto, o homem viu a pesada soca avançar na sua direcção, derrubando alguns utensílios no seu voo rasante pela secretária. Conseguiu desviar-se do projéctil, pensando rapidamente numa solução.
- A aéra da sua residência não pertence a este hospital, usted tem de ir para Lisboa!... E com urgência! acrescentou, desejoso de se ver livre da valente descendente da padeira que em tempos idos tantas dores de cabeça causara aos seus antepassados.
MEDICOS!
Tenho para mim que é mais fácil acertar no Euro Milhões do que encontrar um médico em quem confiar. A história que se segue é verídica e parte dela aconteceu há 30 anos mas podia muito bem acontecer amanhã.
Uma criança de 3 anos caiu e fez uma fractura num dos braços, junto ao cotovelo. Levada para o hospital foi observada por um ortopedista que hesitou entre operar e engessar de imediato. Como operar seria muito mais trabalhoso decidiu-se pela 2ª hipótese. Passado o tempo necessário, ao ser retirado o gesso verificou-se que a menina tinha um alto enorme no cotovelo e não esticava o braço. O médico que a atendeu achou que tal situação seria passageira e que se devia apenas ao medo que ela teria de ter dores. Quando à deformação nem palavra. Como o tempo passasse e a filha não tivesse melhoras os pais decidiram levá-la ao consultório do médico que a atendera nas urgências e que decidira não operá-la. Mal explicaram ao que iam e deram mostras de estarem a pôr em causa a decisão que ele tomara naquele dia, foram de imediato insultados e expulsos do gabinete.
A criança foi levada a outro médico que mandou fazer fisioterapia. O braço voltou a funcionar mas a deformação irá manter-se para o resto da vida.
Quis o destino que esta jovem fosse trabalhar para um hospital. E também quis o destino que ela um dia contasse a uma enfermeira o que lhe acontecera na infância. A enfermeira quis saber o nome do médico e riu-se ao ouvi-lo. "Conheço-o muito bem, trabalho com ele neste hospital. É um homem arrogante e mal-educado. Se quiser posso marcar-lhe uma consulta e você pergunta-lhe se o seu braço ainda terá alguma hipótese de voltar ao normal. Ele agora até é professor e considera-se uma sumidade".
E assim se fez. No dia da consulta, vestindo um roupa que lhe deixava a descoberto a deformação do cotovelo esquerdo, ela entrou no gabinete da sumidade. O médico que já fora informado do que se passara com ela e vendo-a avançar na sua direcção perguntou, incrédulo:
"Quem foi o animal que lhe deixou o braço nesse estado?"
Calmamente, ela sentou-se e fitou-o nos olhos: "O senhor lembra-se de há trinta anos ter atendido uma criança de três anos nas urgências do hospital x e de uns meses mais tarde ter insultado o pai dessa criança porque ele lhe perguntou se não teria sido melhor ter operado a filha? Essa criança sou eu e esse homem que o senhor expulsou do seu gabinete é meu pai!
Ela falou durante largos minutos. Disse-lhe tudo o que os pais não tinham tido oportunidade de dizer trinta anos antes. Ele ouviu-a sem a interromper, de olhos baixos e rosto corado.
Continuam ambos a trabalhar no mesmo hospital. Quando se cruzam ele cola os olhos ao chão e passa por ela de mansinho.